maio 11, 2004

compêndios da conga irlandesa

Detesto Charles Stewart Parnell, menos por sua inglória biografia que pelas consequências literárias desta. A revelação de seu adultério com Catherine O'Shea, esposa do Capitão Willie O'Shea, não apenas arruinou o movimento parlamentarista pela emancipação irlandesa como também transformou Parnell em um clichê literário, o que é bem pior. Um clichê refinado, mas ainda assim, um clichê.

Encontrar um livro irlandês da primeira metade do século XX que não cite Parnell é tão difícil quanto encontrar um livro brasileiro de qualquer metade do século XX que não cite jumentos ou traficantes; a diferença é que Parnell é um clichê dos melhores livros irlandeses do período, enquanto tuiuius contraponteando entre os minduinzais são clichês dos piores livros brasileiros.

Flann O'Brien cita Parnell em The Third Policeman, em Dalkey e em The Best of Myles; James Joyce era obcecado por Parnell, dedicou-lhe trechos de Finnegans Wake, de Portrait e um conto em Dubliners; C.S.Lewis não fugiu a regra: em The Lion, the wardrobe and the witch as crianças se escondem no guarda-roupa depois que se cansam de discutir Parnell, em O sobrinho do mago a Bruxa põe Uncle Andrew para puxar a carroça depois que ele começa a falar de Parnell; Swift não falou de Parnell porque viveu séculos antes, mas De Selby resolveria este problema; Shaw, Wilde, Synge, O’Casey, até mesmo Beckett: depois de algumas páginas de seu gênio irlandês predileto sempre há o "momento Parnell".

Tamanha aversão ao chavão-daquele-que-além-de-tudo-roubou-o-título-de-Uncrowned-King-of-Ireland de Daniel O'Connell conduziu-me a um plano: se eu escrever vários livros sob pseudônimos diversos, sempre citando personalidades brasileiras da atualidade, daqui a 50 anos meus leitores detestarão essas personalidades. Não é plano tão ruim, vários brasileiros da atualidade merecem a aversão das futuras gerações, mas são todos muito vulgares; meus futuros leitores não merecem ser apresentados a essa ralé. Conspiradores que pretendem macular a literatura com propósitos sórdidos como esse, por favor, não me incomodem; deixem-me em paz lendo gênios irlandeses que citam Parnell.

Posted by Mercuccio at maio 11, 2004 2:34 PM