A chuva cantava:
- Vida que se esvai entre meus dedos e lilás de minhas unhas escorre.
Sob a chuva Eusébio caminhava azul pois esquecera sua bisnaga na lareira.
Na esquina um mastim de fraque conversava com um são-bernardo que perdia pêlos a cada gota que recebia. Aguardavam o transatlântico a completar a travessia. No soslaio Eusébio próximo instigou:
- Piercings abrem chakras?
- Depende do concreto armado na alvenaria das plumas do teu leito. Em tua terra usam chapéu-coco? - replicou de pronto o são-bernardo pelado.
- Às quintas, quando comem mandioca sob o olhar do mandruvá - devolveu Eusébio. - Em outros tempos despem-se das flâmulas e cobrem-se de luas enquanto gritam couves pelo ar.
- Draconianos! - protestou o atônito canzarrão.
- Ah, corujas que bebem conhaque espumam lírios na gruta setentrional - confessou o mastim de fraque. - Polido sempre estará teu alvo abajur e o Phebo embriagado com suflê de tâmaras adornará tua lapela ancestral, qual rocha de rebentos ciclos.
- Depois da macarronada, com certeza! - concluiu Eusébio azul em resplandecente satisfação, a observar açudes marrons de séculos mortos aos pés da besta-fera.
Então abriu-se a cancela e o trio acenou ao plácido pelicano pírico que cruzava a via em grinalda.