agosto 7, 2004

quando a Graça dança, eu também devo dançar

Sobre um tombo que ecoou uma melodia que nunca ouvi:

A graça não veio a mim inicialmente nas formas ou nas palavras de fé. Fui criado numa igreja que, com freqüência, utilizava a palavra, mas com significado diferente. A graça, como muitos termos religiosos, ficou desprovido de significado, de modo que eu já não podia confiar nela.
Primeiro experimentei a graça por meio da música. Na faculdade cristã que freqüentava eu era considerado um desviado. As pessoas oravam por mim publicamente e me preguntavam se eu não precisava de exorcismo. Eu me sentia embaraçado, perturbado, confuso. As portas do dormitório eram trancadas à noite, mas felizmente eu morava no primeiro andar. Eu descia pela janela do meu quarto e me esgueirava para a capela, que tinha um grande piano Steinway. Na capela às escuras, a não ser por uma luzinha para ler a música, eu ficava sentado mais ou menos uma hora todas as noites para tocar as sonatas de Beethoven, os prelúdios de Chopin e os improvisos de Schubert. Meus dedos pressionavam uma espécies de botão palpável para o mundo. Minha mente estava confusa, meu corpo estava confuso, o mundo estava confuso - mas ali eu sentia um mundo oculto de beleza, de graça e de maravilhosa luz como uma nuvem e surpreendente como a asa de uma borboleta. (...)
Mais ou menos na mesma época, me apaixonei. Foi exatamente como levar um tombo, um trambolhão que me virou do avesso, deixando-me em um estado de alegria incontrolável. A terra se inclinava sobre seu eixo. Naquele tempo eu não acreditava em amor romântico, pensando que fosse uma construção humana, uma invenção dos poetas italianos do século XVI. Estava tão despreparado para o amor quanto estivera para a bondade e a beleza. De repente, meu coração parecia inchado, grande demais para meu peito. (...)
Descobri que é terrível sentir-se grato e não ter ninguém para agradecer, estar extasiado e não ter ninguém para adorar. Gradualmente, muito gradualmente, voltei para a fé descartada de minha infância. Eu havia experimentado "gotas de graça", a expressão de C. S. Lewis para descrever aquilo que desperta uma saudade profunda do "perfume de uma flor que não descobrimos, o eco de uma melodia que não ouvimos, notícias de um país que nunca visitamos".

(Philip Yancey, What's so amazing about grace?)

Posted by Mercuccio at agosto 7, 2004 2:09 AM