outubro 11, 2005

Abraxas é abraço.

"Buraco", primeiro conto de "O Livro das Coisas que Acontecem", de Daniel Pellizzari, narra a manhã em que o aposentado José Leonel acordou com um buraco na testa, sem ferida nem sangue. Depois de alguns minutos de aflição, José Leonel fechou o buraco com uma rolha. Com o problema temporariamente resolvido, ele "tomou um banho, vestiu sua roupa de terça-feira e tomou café."

A roupa de terça-feira é o caixão da literatura. Há muita roupa de terça, quarta, quinta-feira na literatura brasileira e nos best-sellers traduzidos para o português.

Comprar novas roupas ou trocar o vestuário de cada dia não mudaria nada; melhor seria se a literatura acordasse pela manhã e descobrisse uma infinidade de buracos em seu corpo: suas roupas de dias-úteis e dias-santos não teriam mais utilidade; o dilúvio a jorrar em cada buraquinho de seu corpo não seria contido por simples rolhas mas apenas pelos dedos inefáveis da divindade.

Viaje do Baixo do Ribas ao tricentésimo-sexagésimo-quarto pleroma, de Legresgrado a Nova Voigordvodina; conheça Ialdabó e Baomé, Abraxas e Sofia, Fedora, Uri, Aneli, Bife-de-Vaca, o glorioso Cabeça-de-Burro, o coiso, o Paizinho Taumaturgo, Marashka e o Fascinante Circo Garcia. Se José Leonel pôde viver com os buracos, você também pode dispensar os uniformes da literatura.

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Posted by Mercuccio at outubro 11, 2005 6:48 PM