" /> Nucopardoca: abril 2004 Archives

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abril 30, 2004

Crocodilo Tom é tombadilho torto

Oba, dias!

a flash, a flesh, a fish, a flush e aquela outra que esqueci

Eu estava de turbante, numa poltrona, com meu chá. No palco havia uma porta, eu atrás dela, os atores em cena. Após a sineta alguém abriu a porta e eu perguntei:

- Ainda gnose?

Então alguém se levantou na platéia e gritou:

- Pelamordedeus, estão discutindo há duas horas e ainda não resolveram! Afinal, o que é a tal da gnose?

Todos no palco olharam para mim com cara de choro. Eu suspirei bem fundo, lambi o restinho de chocolate no canto da boca, cruzei as mãozinhas sobre o peito e respondi:

- Gnose foi uma tentativa de acordo entre os platônicos e os cristãos primitivos, fracassada graças à recusa dos últimos, para a tristeza dos primeiros.

A platéia festejou em brados de júbilo, lançando cartolas ao alto e esvaziando rapidamente o auditório. No palco, o cavalheiro à ponta da mesa balbuciou "não é só isso" mas caiu o pano e ninguém lhe deu atenção.

comer um William Blake já é demais; para tudo há um limite

A maior virtude de Dragão Vermelho está na introdução: em cinco minutos de poucos diálogos há tudo de relevante sobre Lecter pré-Clarice. Ser menos maneirista que Hannibal também é uma virtude, mas não requer tanto esforço.

Norton fraco, Keitel fraco, Hopkins irritante e canhestro; cuecas de Ralph Fiennes, pelancas de Phillip Seymour Hoffman, o Tocha Humana; Emilly Watson como a noiva do Frankesntein, um tigre assediado, um Norman Bates de 5ª categoria.

Delírio humorístico em "you own me awe", ápice da fraude - qual o orçamento, déish pau? Desliguei a tv depois de antecipar a ligação do Mr. D com os vídeos.

Valei-me, Santo Rhett Butler! E pensar que eu poderia estar resenhando Kill Bill, oh!

abril 28, 2004

não peço que sejam todos nabokovs, mas pelo menos fitzgeralds e chandlers

Se o hábito literário não provocasse aquele agradável comichão no cérebro ainda assim teria outra utilidade de grande valor: facilitar a identificação de textos mal escritos.

Apostilas ou blogs, livros técnicos ou religiosos, tratados científicos ou receitas culinárias, não importa o gênero: sem concordância, coesão ou preposições corretas a leitura equivale a um dos 12 trabalhos de Hércules.

Não acredito em teses enunciadas em textos mal escritos. Aliás, não acredito e quase sempre não chego a conhecê-las, pois geralmente desisto de textos sem ritmo lá pela 3ª linha. Se sua teoria é genial mas seu texto é boçal contrate um ghost-writer, mas não perca tempo tentando me convencer a enfrentar idéias dispersas ou orações obtusas.

E engana-se quem pensa que escrevo isso porque sou mimado; erros de sintaxe alheios não dependem da minha modéstia.

- Como ele vai usar uma mesa tão alta? - Com cadeiras altas!

Alguém mais percebeu a citação ao Salmo 25 na cena inicial? Não? Sem problemas, a pouca familiaridade com o aramaico deve ter atrapalhado. Creio que a versão do Third Day não seria reprovada pelo autor da letra, apesar da substituição dos saltérios e harpas pelas guitarras.

Maior que a dúvida de Tomé foi o espanto dos Ocean's Eleven: imagine reencontrar vivo e sem cicatrizes alguém que na hora da morte parecia uma chaga ambulante?

abril 27, 2004

vê que lambança II - a vingança

Não retiro uma linha do que escrevi e nem peço que esqueçam o que publiquei. Digo apenas que a segunda metade é infinitamente superior à primeira, óbvia e previsível, e que, sim, V de vingança é uma grande obra e supera os limites do meio HQ. As virtudes do último tomo compensam o argumento inicial chinfrim, que já era clichê em 1983. Não vou fazer longo discurso sobre diferenças de valor entre as partes e o todo; você, leitor ilustre, já domina o assunto - e as trilogias dos irmãos Wachowski e de Peter Jackson são exemplos recentes.

Agradeço à biblioteca do SESI por proporcionar-me agradável leitura sem exigir os 20 dinheiros cobrados pelo sebo.

abril 22, 2004

luz para todos

Depois de 03 semanas o metódico amigo suspicaz voltou.

abril 19, 2004

update do post anterior ou rosebud

Não interrompa a leitura do post pela obviedade do argumento inicial, leitor, mas desde a infância tenho vontade de fazer um filme.

Não pense o querido leitor, porém, que este desejo tem origem em motivos vulgares como revelar ao mundo meu talento narrativo ou a qualidade de meus diálogos grouxianos. Na verdade, a película seria a parte menos importante do projeto; desde a infância desejo dirigir um filme para poder fazer aqueles cartazes promocionais.

Não se engane novamente, caro leitor, pensando que trata-se de só mais um caso de vaidade ilimitada, da trivial pretensão da notoriedade; sempre quis fazer um filme apenas para inserir o seguinte texto naquela parte dos cartazes onde são reproduzidos os elogios da mídia à obra:

"Nunca acreditei naqueles elogios de cartazes promocionais" - Coadjuvante 1.

"Nem eu. Produtores e publicitários criam jornais e revistas fictícios só para dizer que alguém elogiou o filme." - Protagonista

post memorizado desde dezembro, a espera de um momento de pouca inspiração

Vivi minha pior experiência cinematográfica ao assistir pela primeira vez Executive decision. Não apenas pelo filme, mas pelo contexto. Observe o detalhe da "primeira vez", porque além de tudo sou masoquista.

Em uma madrugada no final de setembro de 2001 tive o prazer de conhecer tal filme, que narra o sequestro de um 747 por um grupo de terroristas árabes que planejam derrubá-lo em Washington D.C. Sim, em setembro de 2001. Em destaque no elenco, Steven Seagal balança o rabinho-de-cavalo com toda a canastrice que lhe é peculiar. O único consolo, se é possível encontrar consolo em filme tão qualificado, é que o personagem de Seagal é defenestrado do avião durante o vôo, para gáudio universal e regozijo dos povos.

Como era previsível, experiência tão marcante levou-me a desenvolver uma nova teoria, a Metafísica Cinematográfica, que propõe que o último filme da carreira do artista deveria ser a recompensa por todos os seus trabalhos. Imagine a monitora acompanhando turistas no museu de cera:

- Oh, esse ator era magnífico, extremamente talentoso, um gênio das artes dramáticas; em seu último filme ele foi o vizinho de Audrey Hepburn no Paraíso.
- Oh!
- Maravilhoso!
- Lembro-me bem, ele era fantástico, incrível!
- E esse outro aqui ao lado?
- Esse aí? - a monitora faz uma pausa - Bem, basta dizer que em seu último filme ele despencou de um avião durante o vôo.
- O avião caiu?
- Não, ele foi espirrado para fora do avião. Sozinho.
- Oooh!

abril 17, 2004

a piada mortal

V for vendetta - 01 foi a pior leitura do ano, até aqui. Avisem-me se Watchmen for parecido, pois então investirei em outra aquisição para a biblioteca dos netinhos.

A arte de Lloyd é louvável, mas o roteiro é capenga, arrastado, lembra os piores momentos de 1984 e BNW. Há algo parecido com ritmo lá pela página 40 e no apêndice final, que nem fazia parte da edição original.

A cada duas páginas eu pensava em atirar a revista pela janela, mas voltava atrás na esperança de que algo acontecesse antes do fim. Devia ter jogado fora lá pela página 05 mesmo.

Moore acertou quanto às câmeras, que já vigiam as ruas de Londres há anos, e quanto à aliança entre fascistas e corporações, mas errou feio ao colocar minorias como vítimas e não como aliados da Nova Ordem.

E onde está a inovação? O que há em V for Vendetta que já não havia em Orwell e Huxley? Nem vou citar aquele outro V , seria covardia.

Na dúvida, prefira Fahrenheit 451, 30 anos mais velho e muito mais humano, poético e criativo.

abril 14, 2004

dedico esse post às criancinhas do Brasil

A página do Go, a página do Bridge e a página do Resta-Um.

quanto mais pobres vocês ficarem, mais se dediquem aos estudos

- Você quer ser escritor ou burocrata? Você precisa largar esse emprego!
- Certo, largo o emprego e vou fazer o quê?
- Vá lavar pratos.

Só percebi que não era piada depois de ler o texto do Faulkner:

O escritor não precisa de liberdade econômica. Tudo de que precisa é de lápis e papel. Eu nunca soube que algo bom em literatura tivesse se originado da aceitação de uma oferta gratuita de dinheiro. O bom escritor nunca pede auxílio a uma instituição cultural. Está ocupado demais escrevendo alguma coisa. Se não é um escritor de primeira classe, ilude-se dizendo que não tem tempo ou liberdade econômica. Pode surgir arte boa de assaltantes, contrabandistas ou ladrões de cavalos. As pessoas na verdade têm medo de descobrir que podem suportar muita adversidade e pobreza. Têm medo de descobrir que são mais resistentes do que pensam. Nada pode destruir o bom escritor. A única coisa que pode alterar o bom escritor é a morte. Os bons não têm tempo para pensar no sucesso ou em ganhar dinheiro. O sucesso é feminino e como uma mulher; se você se curva diante dela, ela passa por cima de você. Então o jeito de tratá-la é dar-lhe as costas da mão. Aí, talvez, ela venha a rastejar.

abril 13, 2004

Hooray for Captain Spaulding, The African explorer. He brought his name undying fame, And that is why we say: Hooray! Hooray! Hooray!

Há quem tenha como projeto de vida a refilmagem da pornochanchada; eu me contentaria em refilmar Marx, Seinfeld, MP ou mesmo o Chaves.

Animal Crackers é superior a Monkey Business - que é mais curto mas perde o ritmo na metade final - mas é inferior a Duck Soup , de melhor edição e roteiro. Para quem prefere algo mais quente há aquele com Norma Jean.

Meia hora de qualquer filme dos Marx é argumento irrefutável contra o cinema brasileiro e demais variações de cinema pretensioso. Centenas de leis de incentivo não vão melhorar os diálogos.

Em minha graduação em Artes Liberais na SJCA defenderei a tese Do Suco de Tamarindo ao Soup Nazi: Elementos Bolañisticos na Obra Seinfeldiana . Não dou mais detalhes porque é preciso evitar a fadiga dos Constanza.

não quero dinheiro, eu só quero amar

A mensagem do filósofo aos jovens estudantes, no que diz respeito à dificuldade financeira, é simples, quanto pior ficar a sua condição econômica, mais se apeguem à sua vocação intelectual. Não cedam à pressão de um mundo que quer matar em vocês o espírito à força de atormentá-los com problemas financeiros. O mundo, no sentido bíblico do termo (isto é, a sociedade mundana), só respeita quem o despreza. Na Primeira Guerra Mundial, o físico Werner Heisenberg, então um adolescente, numa cidade reduzida à miséria pelo cerco e pelos bombardeios, se escondia no porão de uma igreja para ler Platão e discutir com seus amigos a metafísica de Malebranche.

Foram os anos decisivos de sua formação: ele poderia tê-los perdido, aguardando melhores dias para estudar. Mas nada, neste mundo, pode vencer a determinação do homem que é fiel à vocação espiritual. Não se intimidem, não desistam. Quanto mais pobres vocês ficarem, mais se dediquem aos estudos. A porcaria reinante não prevalecerá sobre a sinceridade dos seus esforços. Digo isto com a experiência de quem, ao longo de mais de duas décadas de pobreza, com mulher e filhos para sustentar, jamais deixou de estudar um único dia, aproveitando cada momento livre e abdicando de toda sorte de viagens e divertimentos. Nunca esperei que minha situação melhorasse para depois estudar, e garanto: seja teimoso, e um dia o mundo desiste de tentar dominar você pela fome.

abril 8, 2004

triciclismo, uma utopia rolimã

Queria apenas que a Rainha Elizabeth soubesse que não quero perdê-la, mas a escrita é vã, a Rainha Elizabeth não recebe desaforos.

trobriandrismo, plutocracia espiã

As visitas começaram a elogiar meu jardim:
- Ah, que belo jardim!
- Quisera eu ter um jardim como esse!
- Puxa, se eu vivesse aqui, vinha ler todas as tardes naquela rede, que coisa linda!
- O que é aquilo, uma carpa?
Não aguentei e gritei:
- Puta merda! Não elogiem tanto meu jardim! Vocês estão querendo me enganar? Tenho depurada autocrítica!
Peguei o ancinho e destruí o gramado, raízes pelo ar:
- Não é lindo, é uma porcaria! Não tenho tempo para cuidar dele!
As visitas, atônitas, constrangidas:
- Mas,
Derrubei a fonte a chutes:
- Mas coisa nenhuma, é feio, muito feio; não adianta, não vou ficar convencido.
Matei duas carpas a pedradas, com satisfação:
- Pronto! Assim está melhor. Agora vamos ver o quarto do bebê.
Os convidados, aos prantos, saíram em disparada e pularam o muro, sem olhar para trás. Nem devolveram as xícaras, ingratos.

bastianismo, Setúbal, Leiria, Lousã

Então o jardineiro respondeu:
- Ele não está aqui. Ele vive.
Mas não era o jardineiro; era Carpenter, afeito a monstruosidades, irmão da falecida Sandy.

balonismo, uva, lichia e romã

O nhoque, este natimorto.

Longa vida ao Antônio Canelloni.

botulismo, suja bacia afegã

Mistah Kurt, he is dead.

Longa vida ao cha-cha-cha. E ao José Rubens Cha Cha.

gongorismo, fuga da tia da irmã

- Que é que vocês fazem - perguntou Lucille.
Eu conto vantagens para garotas com quem quero trepar, pensou Profane. Coçou a axila.
- Matamos crocodilos - disse.
- Quê?

abril 6, 2004

sonambulismo, uma anomalia malsã

botulismo, suja bacia afegã

gongorismo, fuga da tia da irmã

trobriandrismo, plutocracia espiã

balonismo, uva, lichia e romã

triciclismo, uma utopia rolimã

bastianismo, Setúbal, Leiria, Lousã

abril 5, 2004

ei, ei, eimael

1152 páginas em defesa de uma tese que não vale um parágrafo.

Autores deviam perceber que calhamaços tornam-se armas letais quando arremessados contra suas cabeças.