" /> Nucopardoca: novembro 2004 Archives

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novembro 29, 2004

o sabonete fanfarrão

Ao final do especial que a GNT reapresentará hoje às 21:30, uma seleção de erros de gravação de Francis, da época de correspondente do JN: Francis fazendo caretas, Francis fazendo biquinho e mandando beijinhos, Francis interrompido 05 vezes seguidas pela fanfarra da convenção do Partido Democrata, Francis falando palavras feias.

- A importação de tecnologia custará (toca o telefone da redação) poutaqueopariu tem que destruir essa merde quem foi que deixou essa porcaria no gancho?

- A investigação não poupará os responsáveis (toca o telefone na redação) por essa poutaqueopariu que não pára de tocar quem é que não pára de ligar pra cá quer falar com quem poutaqueopariu!


francis.gif
Toda pessoa inteligente é contraditória.

E chega de franciscanismo por hoje.

I am not your sugar!

Passei pela locadora para comprar o novo DVD de The Party, Um convidado bem trapalhão. No monitor, imagens toscas: um prato atirado ao chão, um homem a cavalo dentro da casa, um velho olhando para baixo, um menino corredo, a porcaria do cinema brasileiro é reconhecível mesmo sem diálogos. Saí da loja quando dois homens montados em jumentos começaram a cantar oiáaa oiáaa; prato no chão e cavalo dentro de casa eu posso considerar excentricidades, mas oiáaa oiáaa oiáaa já é demais.

Lançaria maldições sobre todos vocês que esgotaram os lotes de "The Party" em uma semana, mas lançar maldições não é costume cavalheiresco.

a idéia de universidade e as idéias da classe-média

Uma das questões utilizava uma análise entusiasmada de Contardo Calligaris sobre o filme "Cazuza", "da longevidade como razão da disciplina em oposição a uma vida intensa"; outra pergunta usava um hoax, uma mapa divulgado na internet dividindo o mundo entre "friends", "enemies" e "farmers" e "cucarachos"; outra apresentava um parágrafo de Malraux celebrando o grande congraçamento dos povos na Guerra Civil Espanhola ao som da Internacional; depois não entendem porque eu passei 04 vezes neste vestibular e não concluí nenhum curso.

novembro 25, 2004

blog é literatura?

Não, é comida de cachorro.

and Noah asked his wife before the sky set wide

does the orange
orangotango
dance the tango?

novembro 23, 2004

sonho da manhã de primavera

Uma tarde, em meu quarto, minha mãe dormia enquanto eu, deitado, conversava com meus amigos Araribóia e Piquaquá, que estavam em pé, quando da rua ouvimos os gritos do doidinho Benedito, que vigiava os carros em frente à igreja:

- Ladrão! Ladrão! O ladrão entrou na casa!

Sem me mover olhei para Piquaquá, que olhou para Araribóia, que decidiu:

- Se o ladrão nos incomodar damos uma surra nele e o prendemos dentro do sofá.

Caímos na gargalhada e continuamos a conversar;alguns minutos depois os ladrões entraram no quarto: um travesti, com glitter nos lábios e um facão na mão, e uma bicha, com glitter nas pálpebras. O travesti avisou:

- Se ninguém reagir, ninguém sairá ferido.

Mas o aviso do gentil e educado travesti nos incomodou muito, e logo que os ladrões nos deram as costas para sair do quarto Araribóia e Piquaquá deram socos em suas nucas. Os bandidos tombaram nocauteados, Araribóia esfregou as mãos e sorriu:

- Vamos prendê-los dentro do sofá!

Piquaquá, porém, percebeu que os ladrões cheiravam mal e resolveu lavá-los. Minha mãe continuava dormindo.

Carregamos os ladrões adormecidos até a cozinha e os jogamos, mesmo vestidos, em um caldeirão com água fervente e sabão-em-pó. Piquaquá sorria enquanto movia a água no caldeirão com uma colher-de-pau; Araribóia ria, pulava e corria de um lado para o outro; um protestante de Minas Gerais entrou na sala e cumprimentou Araribóia, que retribuiu o cumprimento com entusiasmo - para minha surpresa, pois nunca imaginei que Araribóia tivesse amigos protestantes de Minas Gerais.

Terminado o banho levamos os ladrões até a sala, Araribóia abriu o forro do sofá, depositamos os malfeitores adormecidos dentro do móvel e fechamos o forro. Um estrondo nos surpreendeu: abrimos a porta e vimos 04 motoristas desanimados dentro de uma perua batida no carro importado de Araribóia, que, desesperado, começou a chorar. Eu e Piquaquá saímos e convencemos os 04 motoristas desanimados da carreta a transportarem o sofá para pagar o prejuízo do carro importado, que havia sumido. Carregamos o sofá até a calçada e então meu amigo Clementino, "o touro Clementino", levantou o móvel sozinho e colocou-o na perua, que não era mais uma carreta. Araribóia, ainda chorando, orientou os 04 motoristas desanimados a virarem à esquerda e entregarem o sofá em São Paulo; então eu percebi que a rua de minha casa estava no Rio de Janeiro. E minha mãe continuava dormindo.

novembro 22, 2004

só para quem não vai ao pub

Rachmaninoff nº 3, com Mikhail Rudy e a Orquestra Experimental de Repertório, regência de Jamil Maluf, única apresentação hoje, 21:00, no Cultura Artística, por R$10,00 a R$15,00. Só para quem não vai ao pub.

Ficaria satisfeito se pudesse levar solista e orquestra para um concerto no pub. Ou se conseguisse levar barris, mesas e amigos à sala de concerto; não duvido que Jamil Maluf e Mikhail Rudy desceriam do palco e uniriam-se a nós; talvez o próprio Rachmaninoff puxaria uma cadeira e juntaria-se ao grupo, não tenho dúvidas! Doces ilusões: liguei para o pub e eles disseram que lá não há espaço para piano, oboés e fagotes; liguei para o teatro e disseram que os barris não serão admitidos na sala, ainda que o portador seja o próprio Rach, em carne, osso, ectoplasma e harmonia.

Aviso, então, que comparecerei a todos os compromissos marcados, desde que sobreviva ao bloody molar que me perturbou o almoço.

novembro 18, 2004

óbito

Silêncio. Apenas uma pequena fresta entre as folhas da janela na parede oposta à porta iluminava o quarto. Da entrada do aposento, apesar da pouca luz, via-se com exatidão suficiente os contornos e as sombras de todos os móveis da alcova: a camiseira de mógno, no canto à esquerda da porta; o espelho oval, ao lado, no centro da parede oposta à cama; o guarda-roupas, no extremo da parede da janela; as sete prateleiras forradas de livros, na parede por trás da cama; o lustre apagado, como um grande botão-de-rosa branco pendente sobre o leito. Deitado na cama, com a barba feita e soltos os cabelos prateados à altura dos ombros, camisa branca engomada, coberto da cintura para baixo pelo lençol de linho, o velho Mercuccio vivia seus últimos minutos, tendo em volta as 13 mulheres que amava.
Sentada a seu lado, segurava-lhe a mão direita Elizabeth, a grande alegria de toda a sua vida, os cabelos presos em um arranjo na nuca, o vestido até os joelhos cobrindo um corpo ainda rijo e elegante, o mesmo olhar sereno e o rosto doce que 60 anos antes fizeram-no esquecer que havia um mundo, que havia outros olhares e outros rostos.
Em pé, suas três filhas e noves netas consolavam umas às outras, abraçadas em pequenos grupos: Helena e suas filhas Ana, Lúcia e Ester; Laura e as filhas Rebeca, Manoela e Carolina; Estela e as queridas Isabel, Catarina e Luísa. Em cada uma o mesmo vigor singelo e deslumbrante de sua musa Elizabeth. Nenhuma delas chorava por Mercuccio; coroavam o luto com a memória dos anos de satisfação vividos a seu lado.
A um sinal do ancião, todas reuniram-se em um semi-círculo ao redor da cama. O velho escritor então lhes disse, ainda com firmeza na voz:
- Leiam Vladimir Nabokov.
E fechou os olhos.
Elizabeth beijou-lhe a testa, seguida pelas doze. Estela cobriu o corpo inerte com o lençol, Manoela abriu a janela, as treze deram as mãos e uniram-se em uma breve oração. Terminada a prece, enxugaram as lágrimas que insistiam em rolar, sorriram, compartilharam carícias e abraços quando foram surpreendidas pelo súbito movimento no lençol e por Mercuccio sentado sobre a cama:
- No original! Ou na tradução do Jorio Dauster!
Então ele sorriu e voltou ao repouso eterno.

"o melhor do brasil é o brasileiro"

Agradeço ao criador da frase pelo incentivo ao exílio.

novembro 16, 2004

a negra noite da consciência

- Afro-brasileiro.
- Como?
- Não sou negro; sou afro-brasileiro.
- Afro-brasileiro?
- É.
- E qual o problema com "negro"?
- O uso da palavra "negro" para definir africanos e afro-descendentes revela uma visão eurocentrista do mundo. "Negro" foi o termo encontrado pelos europeus para melhor expressar seu espanto diante de homens e mulheres com a pele como a cor da noite, mas este termo não leva em consideração toda a riqueza das tradições históricas e culturais das nações irmãs africanas, herança tão vigorosa que nem mesmo 500 anos de escravidão nas Américas puderam sufocar.
- Nações irmãs africanas?
- Isso.
- 500 anos de escravidão nas Américas?
- Perfeitamente. Ou você prefere ignorar o sofrimento do povo do gueto?
- Não, não; eu não ignoro o sofrimento do povo do gueto. Mas você sabia que muito antes da chegada dos europeus já havia escravidão na África?
- Escravidão na África antes dos brancos chegarem? E quem eram os donos dos escravos?
- Os negros africanos.
- Não, eu não perguntei quem eram os escravos, eu perguntei quem eram os donos.
- Os donos dos escravos eram negros africanos. Negros africanos escravizavam negros africanos.
- Pode parar! Vai querer que eu acredite que antes da chegada dos brancos na África os negros escravizavam outros negros?
- Isso mesmo. Antes, durante e depois. Negros escravizavam negros. Ah, como sou ignorante; o certo é: "afro-ascendentes" escravizavam "afro-ascendentes"! Pronto! Está melhor assim?
- Negro escravizando negro? Como é que pode? É tudo o mesmo sangue! É tudo a mesma raça! São todos filhos de Mama-África!
- Como é que pode? Com guerra, com lança, com facão, com seqüestro, com estupro. Agora, de quem eles eram filhos eu já não sei.
- Eu vou dizer o que tá acontecendo aqui: você é um racista, um escravista desgraçado! Você está inventando um monte de mentiras para diminuir o orgulho que eu sinto pela raça!
- Ih, já começou.
- Você fica aí com essa sua mentalidade de branco espalhando intrigas para enfraquecer o movimento! Afinal, é perigoso que os negros pensem: um negro consciente vai contestar o sistema, vai questionar a desigualdade: então é preciso desestabilizar a conscientização! Ah, mas a mim você não engana!
- Para de falar bobagem! Como é que você pensa que os europeus conseguiram levar escravos negros para a Europa e a América? O europeu chegou de repente na África, sem nunca ter pisado lá antes, carregando um mapa que mostrava a localização de todas as tribos que ele poderia escravizar? Deixa de ser burro: africanos que já escravizavam africanos passaram a vender seus escravos para os brancos. Tribos e nações africanas já guerreavam entre si e praticavam o escravismo muito antes da chegada dos brancos. E durante a colonização das Américas os maiores senhores-de-escravos da África eram africanos.
- Mas como um negro podia escravizar outro negro? Eles não sofriam juntos? A causa da escravidão não era o racismo?
- Ah, eu não acredito, eu não acredito; pergunte aos chineses se eles amam seus irmãos japoneses; pergunte aos alemães se eles amam seus irmãos franceses; se você mesmo, dono de uma burrice tão ofensiva, não gosta de cariocas e argentinos, por que os africanos deveriam se amar gratuitamente?
- Porque eles foram escravizados, porque sofreram, porque sempre foram pobres.
- Vou fingir que não escutei.
- Porque eles têm a mesma origem, a mesma ginga, a mesma raça!
- Desisto. A propósito, estou com uma dúvida: se alguém saísse na rua com uma camiseta escrito "100% Branco", seria racismo?
- Claro que sim! Depois de tudo que os brancos fizeram e ainda fazem com africanos e afro-descendentes!
- Só mais uma dúvida: se você gosta tanto da África, se faz tanta questão de ser chamado de afro-descendente e de valorizar as ricas tradições culturais africanas, por que você não muda para a África? Por que você não volta definitivamente para a terra de seus ancestrais?
- RACISTA! VOCÊ É MUITO RACISTA!
- Deixa de ser besta, em nenhum momento eu disse que negros são inferiores.
- RACISTA! SAIA DAQUI COM ESSE SEU VENENO RACISTA! ESTOU TAMPANDO MEUS OUVIDOS! SEU VENENO RACISTA NÃO VAI ME CONTAMINAR!
- Pare de bobagem, negão, minha pele é mais escura que a sua; só parece que minha consciência é um pouco mais clara.

canetada

Em 28/09/1871 a Lei do Ventre Livre acabou com a prisão de ventre no Brasil.

novembro 11, 2004

mediocridade, Império e Espírito

Alguns americanos boçais criaram um site para pedir desculpas ao resto do mundo pela reeleição de George Walker. Não vou dar o link porque não quero promover imbecis; eles que saiam de casa com o penico na cabeça.

Some of us — hopefully most of us — are trying to understand and appreciate the effect our recent election will have on you, the citizens of the rest of the world. As our so-called leaders redouble their efforts to screw you over, please remember that some of us — hopefully most of us — are truly, truly sorry. And we'll say we're sorry, even on the behalf of the ones who aren't.

Os responsáveis pelo site e os imbecis que pelo mundo afora aplaudem a iniciativa apresentam duas manifestações diferentes do mesmo complexo de inferioridade.

O complexo de inferioridade na versão dos americanos boçais:
- Ó mundo, perdoe-me, eu também quero participar da Grande Comunidade Assistencial Mundial, eu sei que você não gosta do caubói indelicado, eu também não gosto, eu não pude fazer nada, me perdoe, eu quero ser seu amigo, prometo que vou ser um bom menino!

O complexo de inferioridade na versão dos boçais around the world:
- Viu só? Os americanos estão me pedindo perdão! Eu sabia que eu tinha razão! Eu sabia que minha opinião era importante e seria reconhecida!

A grande questão não é saber se Bush é "o presidente do mundo" ou não; a questão realmente relevante é: sua vida é tão vazia e sem sentido ao ponto do "presidente do mundo" tornar-se tão importante para você? Sua vida é tão pequena e absurdamente materialista? Você não sabe o que é Arte? Você não sabe o que é a vida do Espírito? Lamento.

novembro 9, 2004

prévia do post da semana que vem

- Afro-brasileiro.
- Como?
- Não sou negro; sou afro-brasileiro.

Continue reading in the next week.

rascunho de um guia de leituras subversivas

Da imaginação literária como instrumento de iconoclastia.

Em Right ho, Jeeves!, profanado pela Editora Globo como Então tá, Jeeves!:

* O jovem Paulo Francis, com óculos de aro de tartaruga, alimenta seus queridos tritões, no tanque de sua casa-de-campo no interior da Inglaterra.

* A rainha Elizabeth II, 52 anos, cabelos castanhos, vestido rosa, invade às 4:00 da manhã o quarto de um atônito Robert Downey Jr. de pijama azul, para espanto de Sir Ian McKellen, de smoking, à porta.

* Robert Downey Jr., de tweed, inclina a cabeça 05 graus à direita e ergue a sobrancelha esquerda 05 milímetros ao encontrar Sir Ian McKellen conversando com o jovem Paulo Francis vestido de Mefistófeles, capa vermelha, saliência do abdome na malha rubra, calça de malha, luvas, sapatilhas e capuz com chifres de cetim, na sala-de-estar.

Perceba que personagens de farsa britânica não é sinônimo para metrossexuais e dispense a empostação-Clodovil.

novembro 5, 2004

sorry, periferia

Nenhuma mudança no Grande Satã, apesar dos brilhantes esforços da comunidade Kerry é abraço.

Emir e seus binladens - céus, como Jabor é previsível - lançarão a culpa sobre a já famosa ignorância do norte-americano médio - coisa inventada para a alegria de universitários e de toda a claque que pensa que pensa - o que nos leva a questão crucial: se os eleitores de Ohio mandaram os ingleses do The Guardian "escovar os dentes amarelos e apodrecidos", o que diriam a qualquer avatar da inteligêntzia tupiniquim? Waaal, tirem as crianças da sala.

E evitemos trocadilhos infames e óbvios da categoria Ohio que o parta; please.

novembro 1, 2004

smith vasconcellos

Vai, vai, vai.

Véia burra.

Vai, vai.

E não volta.

"não se deve responder uma pergunta com outra pergunta"

Repórter: - Sr. Mercuccio, é verdade que o senhor defendeu o voto útil?
Mercuccio:- Que foi que eu te fiz para você me tratar assim? Eu xinguei tua mãe?
Repórter: - Mas o senhor comemorou os resultados das eleições?
Mercuccio:- Que tipo de pergunta é essa? É uma forma de compensar suas frustrações?