Uma tarde, em meu quarto, minha mãe dormia enquanto eu, deitado, conversava com meus amigos Araribóia e Piquaquá, que estavam em pé, quando da rua ouvimos os gritos do doidinho Benedito, que vigiava os carros em frente à igreja:
- Ladrão! Ladrão! O ladrão entrou na casa!
Sem me mover olhei para Piquaquá, que olhou para Araribóia, que decidiu:
- Se o ladrão nos incomodar damos uma surra nele e o prendemos dentro do sofá.
Caímos na gargalhada e continuamos a conversar;alguns minutos depois os ladrões entraram no quarto: um travesti, com glitter nos lábios e um facão na mão, e uma bicha, com glitter nas pálpebras. O travesti avisou:
- Se ninguém reagir, ninguém sairá ferido.
Mas o aviso do gentil e educado travesti nos incomodou muito, e logo que os ladrões nos deram as costas para sair do quarto Araribóia e Piquaquá deram socos em suas nucas. Os bandidos tombaram nocauteados, Araribóia esfregou as mãos e sorriu:
- Vamos prendê-los dentro do sofá!
Piquaquá, porém, percebeu que os ladrões cheiravam mal e resolveu lavá-los. Minha mãe continuava dormindo.
Carregamos os ladrões adormecidos até a cozinha e os jogamos, mesmo vestidos, em um caldeirão com água fervente e sabão-em-pó. Piquaquá sorria enquanto movia a água no caldeirão com uma colher-de-pau; Araribóia ria, pulava e corria de um lado para o outro; um protestante de Minas Gerais entrou na sala e cumprimentou Araribóia, que retribuiu o cumprimento com entusiasmo - para minha surpresa, pois nunca imaginei que Araribóia tivesse amigos protestantes de Minas Gerais.
Terminado o banho levamos os ladrões até a sala, Araribóia abriu o forro do sofá, depositamos os malfeitores adormecidos dentro do móvel e fechamos o forro. Um estrondo nos surpreendeu: abrimos a porta e vimos 04 motoristas desanimados dentro de uma perua batida no carro importado de Araribóia, que, desesperado, começou a chorar. Eu e Piquaquá saímos e convencemos os 04 motoristas desanimados da carreta a transportarem o sofá para pagar o prejuízo do carro importado, que havia sumido. Carregamos o sofá até a calçada e então meu amigo Clementino, "o touro Clementino", levantou o móvel sozinho e colocou-o na perua, que não era mais uma carreta. Araribóia, ainda chorando, orientou os 04 motoristas desanimados a virarem à esquerda e entregarem o sofá em São Paulo; então eu percebi que a rua de minha casa estava no Rio de Janeiro. E minha mãe continuava dormindo.