É um fato melancólico, para aqueles que passeiam por esta grande cidade ou viajam pelo Brasil, ver as ruas, as estradas e as portas dos casebres repletas de mendigas seguidas por três, quatro ou seis crianças, todas esfarrapadas e a importunar os passantes, pedindo esmolas. Tais mães, ao invés de poderem trabalhar pela sua honesta manutenção, são forçadas a passar todo o tempo andando ao léu, a esmolar o sustento de seus pequenos desvalidos, os quais, depois que crescem, se tornam ladrões ou traficantes, por falta de trabalho, ou filiam-se a partidos políticos e ONG’s, como o PCC, o CV, o MST e a UJS.
Julgo haver concordância, entre todos os cidadãos, de que esse número prodigioso de crianças nos braços, ou nas costas, ou mesmo nos calcanhares de suas mães, e freqüentemente dos pais, é, na atual e deplorável situação da república, um grandíssimo dissabor a mais; por conseqüência, quem pudesse encontrar um método simples, barato e lícito de transformar essas crianças em membros saudáveis e úteis da comunidade não mereceria louvores do povo, nem ter sua estátua erigida como Salvador da Pátria; já seria bondade suficiente deixá-lo em paz, sossegado no seu canto, talvez com uma recompensa vitalícia que lhe possibilitasse divulgar suas idéias em países necessitados como República Tcheca, Suíça ou Mônaco.
De minha parte, tendo voltado meus pensamentos durante muitos anos a esse importante assunto e considerado com maturidade as diversas propostas de outros planejadores, sempre concluí que estivessem grosseiramente equivocados em seus cálculos. Uma criança recém-saída do ventre pode muito bem ser mantida com o leite materno durante um ano inteiro, e com pouca nutrição adicional: quando muito, não mais que o valor de alguns reais, ou mesmo com migalhas, que certamente a mãe poderá obter por sua ocupação legal de pedinte. E é exatamente na idade de um ano que proponho cuidar dessas crianças, de modo que, ao invés de se tornarem um peso para seus pais ou para a pátria, ou de carecerem de comida e roupa pelo resto de suas vidas, venham elas a contribuir, pelo contrário, para alimentar e vestir parcialmente milhares de pessoas.
Agora, pois, hei de propor humildemente minhas próprias idéias, que não serão passíveis, espero, da menor objeção.
Um francês muito experiente, meu conhecido, assegurou-me que uma criança nova, saudável e bem nutrida é, com um ano de idade, o alimento mais delicioso, benéfico e nutritivo que existe, seja cozida, assada, grelhada ou ensopada; e não tenho dúvida de que poderá ser preparada como feijoada ou sarapatel.
As mães deverão deixar seus filhinhos mamar à vontade no décimo-segundo mês, para que fiquem rechonchudos e gordos para uma boa mesa. Uma criança dará dois pratos numa recepção para amigos; quando a família jantar sozinha os quartos anteriores ou posteriores fornecerão um prato razoável que, com uma pitada de pimenta e de sal, agüentará bem até o quarto dia, especialmente no inverno.
Admito que esse alimento será caro, e, portanto, mais adequado aos empregados do Estado, eleitos ou nomeados, os quais, já tendo devorado os pais, parecem ter todo o direito de fazer o mesmo com os filhos.
Aqueles que são mais econômicos (como, devo confessar, estes tempos exigem) poderão esfolar a carcaça, cuja pele, artificialmente tratada, proporcionará luvas admiráveis para as senhoras e botas de verão para os cavalheiros.
Quanto à nossa cidade de São Paulo, matadouros podem ser designados para esse propósito, nos lugares mais apropriados, e com toda a certeza não faltarão açougueiros, embora eu recomende comprar crianças vivas e abatê-las na hora do consumo, como fazemos com os leitões assados.
Suponho que as vantagens da proposta que tenho feito são óbvias e diversas, bem como da mais alta importância:
PRIMEIRAMENTE, ao passo que a manutenção crianças de um ano para cima não pode ser calculada em menos R$ 300,00 anuais por cabeça, as reservas nacionais seriam incrementadas em centenas de milhões de reais por ano. Além disso, haveria o advento de um novo prato às mesas de todos os homens de fortuna do país que tenham algum refinamento de gosto. E o dinheiro circularia entre nós mesmos, pois todos os produtos seriam de nossa própria criação e manufatura.
SEGUNDAMENTE, as parideiras permanentes, além do lucro pela venda de seus filhos, estariam livres do fardo de sustentá-los após o primeiro ano de vida.
TERCEIRAMENTE, esse alimento atrairia também maior freguesia para os restaurantes, onde os comerciantes teriam por certo grande cuidado em providenciar as melhores receitas para prepará-lo com perfeição e para, assim, ter suas casas freqüentadas por todos os distintos cavalheiros, que com justiça se gabam de seus conhecimentos gastronômicos. E um cozinheiro habilidoso, que saiba agradar seus fregueses, sempre daria um jeito de torná-la tão cara quanto a estes lhes agradar.
QUARTAMENTE, aumentaria o cuidado e a ternura das mães pelos filhos, pois estariam certas de uma colocação para seus pobres bebês no futuro, patrocinada de algum modo pelo poder privado, obtendo ganhos anuais em vez de despesas. Observaríamos uma honesta rivalidade entre as mães, a fim de ver quem traria o filho mais gordo para o mercado. Os homens teriam tanto interesse por suas esposas, durante o tempo da gravidez, quanto têm agora por suas éguas prenhes, suas vacas com bezerro ou suas porcas em vias de parir; e não mais se prontificariam a espancá-las (como é a prática freqüente), por medo de um aborto.
MUITAS outras vantagens poderiam ser enumeradas. Por exemplo, a adição de algumas toneladas em nossa exportação de carne bovina, um aumento na oferta de carne suína e a melhoria na arte de produzir bacon de qualidade, em grande falta entre nós devido à matança excessiva dos porcos, tão constantes em nossas mesas; mas de modo algum comparáveis em gosto ou pompa a uma criança bem criada e gorducha, a qual, assada inteira, há de fazer grande figura no banquete do senhor prefeito ou em qualquer comemoração pública. Atento à brevidade que sou, passo por cima deste e de muitos outros pontos.
Não vejo nenhuma objeção que possa ser levantada contra esta proposta, a não ser que se alegue que o número de pessoas muito se reduzirá em todo o país. Admito-o de bom grado, e foi esse, com efeito, um dos principais motivos que me levou a oferecê-la ao mundo. Desejo que o leitor observe que calculo meu remédio única e exclusivamente para a República do Brasil, e para nenhuma outra que exista, tenha existido, ou venha a existir sobre a face da terra. Assim, que ninguém me fale de outros expedientes como reduzir a carga de impostos ou favorecer a livre-iniciativa privada e a criação de empregos.
DECLARO, com toda a sinceridade do coração, não ter o menor interesse pessoal ao me empenhar em promover esta obra tão necessária; um só motivo me impele e é o bem-estar de meu país - pelo desenvolvimento do comércio, pelo cuidado às crianças, pelo socorro aos pobres e pela satisfação dos mais ricos. Não tenho filhos com os quais pudesse angariar nenhum tostão e aceitaria com resignação a árdua tarefa de divulgar minha proposta às nações necessitadas, mediante irrisória recompensa vitalícia.
(Adaptado da tradução de Leonardo Fróes para "A modest proposal", de Jonathan Swift, in Panfletos Satíricos, Topbooks, 1999.)