Depois de meses folheando a revista na banca para pegar o código de acesso ao site, ou simplesmente lendo melhor parte na comunidade "Diogo Mainardi" do Orkut, comprei uma Veja; a imprensa brasileira sempre me assusta.
Lya Luft diz que eu, você e ela somos culpados da existência, sofrimento e morte das crianças traficantes. A moda intelequitual de querer me culpar de tudo não acabou no século passado? Waaal.
Não duvido que Lya Luft seja responsável por grande parte dos males que flagelam a humanitude, e até incentivo a emoção:
- Vem, Lya, sinta-se culpada pelo meu cartão-de-crédito estourado. Fique à vontade, não se aflija: quando cansar de se preocupar com a fatura do cartão pode começar a chorar pela cristaleira da vovó que eu quebrei, pelo feijão que eu queimei e pela Veja que comprei. Isso, minha filha, chora por mim que faz bem.
Também não morro de amores por você, leitor, que não deve ser grande coisa; mas daí a acreditar que eu seja responsável pelas crianças do tráfico? EEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEU? Eu, que sou da mesma geração que os falecidinhos, da mesma geração que os pais deles, e jamais pus um filho no mundo? Eu, eu mesmo, mimself?
Aguardo ansioso o dia em que algum jënho prove em página inteira de jornal minha parcela de culpa pelo Holocausto, por Napoleão e pelo Big Bang. O massacre de 60 milhões de indígenas nas Américas eu até assumo, com orgulho.
Até hoje só li dois textos de Lya Luft; nas duas vezes ela me pareceu bem burrinha. Tive a impressão de que ela escreve como um garoto de 11 anos que faz a terceira série pela terceira vez. Apesar de mim, Lya Luft é autora de alguns dos livros mais vendidos no Bananão nos últimos anos. E o governo, aliado a toda essa gente que quer que eu assuma a culpa pela delenda de Cartago, ainda faz campanha para que o povo leia mais. O povo, você sabe: o menino do tráfico, a mãe, o vizinho deles e aquele X-9 encardido que fica implorando "pelo amor de Deus não me mata". Ler Lya Luft? Não, deixa os coitados sem ler mesmo que é melhor, depois eles vão até agradecer:
- Então mano colô uns barato aí de esquema de uns livro chato de uma tia caô mó veneno ainda bem que nóis fizemo a correria e cê livrô a nossa cara truta firmeza sangue é nóis.
Isso lembra
(ATENÇÃO! ATENÇÃO! ATENÇÃO!
PELA TERCEIRA VEZ EM 600 POSTS VOU ESCREVER O NOME!
NÃO PERCA A CHANCE DE DIZER QUE ELE É MEU GURU, CHEFE APACHE, OBI-WAN KENOBI DA JUVENTUDE BEM-NACIDA DAS ELITE!
E DEPOIS VOCÊ AINDA PODE DIZER QUE SOU PREVISÍVEL! SIGH HEIL!
É NÓIS, ÇB!)
...o que Olavo de Carvalho escreveu uma vez, sobre como começou a trabalhar aos 12 anos, e que se fosse hoje o Estado o tiraria do trabalho e o colocaria em uma sala-de-aula para ler Paulo Coelho.
Na mesma edição da Veja, Isabela Bocó reclama de V de Vingança, o filme, porque a história original fala de um terrorista que luta contra um regime totalitário mas foi escrita durante o liberalismo de Margaret Thatcher.
É pra isso que as pessoas estudam História Social da Arte?
Crítica tão relevante e bem fundamentada equivale a condenar Hamlet porque Shakespeare nunca viveu sob o governo de um golpista dinamarquês; ou desprezar 2001, o filme, porque em 1968 os computadores não tinham emoções, ou porque 1968 não era 2001 - vale tudo, melhor não duvidar.
Na próxima semana Isabela vai tentar provar que sou culpado pela careca de Natalie Portman, e Lya Luft vai pedir a ajuda de V contra a violença do tráfico. Ou contra o câncer de próstata, que também é um horror e ai meu deus vamos moralizar este Brasil tão lindo.